Agora em janeiro completou 2 anos que estou trabalhando na cozinha e dois do Indo pra Cozinha. Parece que tem muito mais tempo, afinal, como raramente temos folgas os dias e as experiências são bem mais intensas. Então, acho que nada mais justo que eu parar um pouco para avaliar como foi todo este tempo e o que eu vi e vivi neste tempo.
Vi muita coisa: restaurantes e cozinhas mega estruturadas, restaurantes que atrasam pagamentos e não valorizam em nada seus funcionários, pessoas apaixonadas pelo o que fazem e se divertem em uma cozinha, pessoas que estão ali trabalhando sem paixão alguma ou dom, mas que precisam de um emprego; pessoas que amam a cozinha, mas que desistiram desse sonho em virtude das condições de trabalho e baixos salários. Vi muito mais coisas, mas também já comentei isto em outros posts.
Vivi muito também: conheci pessoas maravilhosas, outras nem tanto, trabalhei como um condenado em férias e feriados, aprendi trocentos pratos e técnicas diferentes, me cortei horrores, me queimei e ainda hoje me queimo quase que semanalmente rs, fiquei algumas semanas sem nenhuma folga e dobrando constantemente, virei noites na farra após dias loucos e estressantes na cozinha e fui trabalhar direto, ri muito, aprendi muito, descobri um outro lado meu, briguei, xinguei, chorei, achei que não era capaz de enfrentar tanta mudança na vida e que também não tinha condições de trabalhar em uma cozinha.
Mas, tudo passa e estou aqui indo para meu terceiro ano na cozinha. Feliz? Sim, com certeza, não trocaria minha vida, quer dizer, talvez eu começaria mais cedo nesta carreira. Realmente amo muito a cozinha e o ambiente de restaurantes e é algo que quero para minha vida.
Não posso ser hipócrita e falar que tudo nesta vida é lindo e que eu sou a pessoa mais feliz neste mundo, também não é assim. Tenho algumas crises, decepções, ainda não consigo acreditar porque se paga tão pouco para os funcionários da cozinha e tanto para os garçons hahaha, como alguns patrões valorizam pouco ou quase nada sua brigada de cozinha. Porra! Ralamos pra carai, criamos, executamos, planejamos e quem serve a nossa comida e atende é que leva a grana? Não tiro o mérito dos garçons, jamais faria isso, mas as pessoas vão até um restaurante é para comer e, consequentemente, serem bem atendidas. Então, show me the money!!!
Muitas pessoas me perguntam o que eu espero do futuro com a Copa do Mundo, Olimpíadas, valorização da profissão, crescimento da gastronomia etc. Realmente a tendência é que tudo melhore, a cada dia abre um restaurante novo em algum lugar e estes lugares não estão sendo ocupados por cozinheiros de prática, eles querem pessoas estudadas, que falem outras línguas, que conheçam diferentes tipos de culinária e técnicas diferentes. Mas o problema não são estes grandes eventos, o problema é o que fazer depois deles. Será que este tanto de hotéis, restaurantes, bares, gastropubs, etc terão demanda o suficiente para funcionar? Então, depois desse boom talvez nossa profissão seja ainda mais mal paga, porque profissional para trabalhar é o que não vai faltar.
O número de restaurantes que abrem é diretamente proporcional ao número de restaurantes que fecham por má administração e outras questões. Tem muito "empresário" achando que é fácil administrar um negócio neste segmento, que é só abrir as portas que os clientes brotam, que vão lucrar no primeiro ano de negócio, que receberam uma graninha e vão investir neste "sonho". O jogo não funciona assim, meu caro. Também é preciso muita paixão e dedicação para administrar um restaurante.
Se você já mandou e-mail para mim pedindo conselhos e dicas de como enfrentar a cozinha ou trocar de carreira, sabe muito bem meu discurso: não é tudo tão lindo, tem que gostar mesmo, ralamos mesmo, o clima é tenso e quente, se planeje, faça uma pé de meia antes bla bla bla Meu discurso não muda e talvez nunca mude. O que precisa mudar é mentalidade de muitos restaurateurs/administradores.
Abraços comemorativos,
Felipe Tavares